Amigo-A,
Após muito sofrimento e depois de muita trazodona, lítio, clonazepam e sertralina, que nunca me curaram, por acaso, encontrei o tratamento ideal para mim: a escrita literária. Acabaram a angústia, o medo, insegurança, ódio e a melancolia, menos a insônia que se tornou minha companheira nas longas noites de solidão. Agora é assim: impreterivelmente, acordo e me desperto entre três e meia e quatro horas da manhã. É como se o próprio Deus batesse em meu ombro e me dissesse: ‘tá hora de levantar; escreva o que vou te ditar, por favor.Divido com o Amigo-A mais um poema existencial que acabei de escrever nessa madrugada insone: źA DANÇA.
🖋A DANÇA
A vida inteira
A gente vive rodeado de coisas boas e ruins, Vivendo apressado,Preocupado,Submetido a altos e baixos,Verdadeira montanha-russade emoções,Como se fossem isso Provas escolares mandatórias De ciências, matemática, História do Brasil e filosofia, Quando um dia a gente vai bem, Outro mais ou menosDepois vai muito mal, Parecendo conversa de surdo-mudoBatuque na cozinhaGira-gira para crianças,Mas era só uma prova de vidaAlgo tão comum e banalOnde rodam inocentemente Lado a ladoAlegria, felicidade, Tristeza e melancoliaEm meio ao rancor, raiva, espantosDesequilíbrio e falta sabedoria.Assim fico me perguntando:Que brincadeira de mau gosto é essaQue eu tenha que mentir,Fingir que não viEsconder meus sentimentosTer vergonha de meus pensamentosFechar os olhos aos absurdosE às maldades do mundoDançar conforme a músicaPara seguir adiante na vida De duras verdadesSortilégios e encantamentos?Paulo Rebelo, médico escritor e poeta da Linha do Equador