O QUE É QUE EU QUERO MAIS?

AMIGO, O QUE É QUE EU QUERO MAIS?!
Crônica de Paulo Rebelo

Ao fazer um balanço da minha vida, que nunca foi perfeita, o resultado é altamente positivo. As razões são muitas; a principal é a maravilhosa família construída; tenho uma esposa valorosa com a qual estou casado há 43 anos, a Bernadete Rebelo, médica pediatra e hebiatra, e cinco filhos, todos na área médica, que nunca nos trouxeram problemas, pois são obedientes, respeitosos, responsáveis e trabalhadores. Não existe o melhor. Estão emancipados. Assim agradeço a Deus pela existência deles ao meu lado. A família é a minha razão de vida.

Ocorre que eu vivia dizendo que se eu morresse hoje, eu morreria feliz, algo reprovável pela Bernadete. Eu falava sério que doía. Ela dizia que eu chamava mau agouro.

Além disso, tenho minha mãe (Clécia, 90 anos) que cuido com afinco e desvelo, não lhe faltando absolutamente nada, e tenho um relacionamento excelente com meus irmãos (3). Faz poucos meses que nos reunimos em Belém, quando agradecidos, fui homenageado por todos eles com direito a discursos emocionados por ter assumido o “papel de patriarca”, sendo o substituto moral de nosso pai falecido há 20 anos, tendo cuidado dele até a sua morte. Tu já viste isso?

Por fim, não menos importante, sou realizado na medicina, pois
busco agir conforme os preceitos mais elevados da profissão, tendo atendido milhares de pacientes e feitos muitos amigos. A relação com meus pares médicos e demais profissionais com enfermagem, fisioterapia e etc. é muito saudável.

Assim quando tive um infarto do miocárdio há 1 ano e 7 meses a minha percepção de vida mudou radicalmente. Foi uma lição pessoal e intransferível, e talvez, a minha curiosa história, que é muito comum sirva como uma passagem de experiência ou para a curiosidade de alguém.

A breve história começou na manhã de segunda-feira do dia 03.02.2025, exatamente, às 6 horas e 23 minutos, quando tive um prolongado episódio de angina do peito dita instável. Nessa hora, disse-me: “estou infartando; vou morrer!” Pensei na bobagem que dizia: “se eu morresse hoje morreria feliz”. Eu não queria morrer!

Havíamos chegado de um belíssimo cruzeiro pelo atlântico sul. Estava muito feliz. Eu completara 67 anos no dia 25 de janeiro em pleno alto mar ao lado de toda família. Eu repetia sempre o bordão de meu falecido pai Evandro, vulgo cuiú-cuiú (peixe do bico grande), que feliz da vida e realizado já bastante doente do coração dizia: “O QUE É QUE EU QUERO MAIS?!” Não era resignação; era satisfação plena pelas suas conquistas pessoais.
Assim estava eu também num perpétuo estado de pura graça.

Vale à pena te dizer o seguinte: antevendo a sua morte, aproveitamos a vida como podíamos. Eu sempre o levava com Bernadete e os filhos ainda pequenos para tomar banho no Rio Araguari, armávamos sua rede no tronco das árvores às margens do rio, mandávamos assar um belo tambaqui, feijão, arroz, farofinha e vinagre, e eu, conscientemente, o liberava para tomar suas 2-3 latinhas de cerveja SKOL ou BRAHMA. As crianças lembravam que o vovô já limitado fisicamente havia lhes ensinado a nadar e mergulhar, mas naquele momento eu não podia mais nadar dado a sua adversa condição de saúde. Ao dormir profundamente, roncar e acordar por volta das 16 horas, perguntava para a risada de todos: “eu dormi, hein?!” “Claro, papai!” No retorno à Macapá, ele e nossos três filhos cansados dormiam como nos braços de Morfeu*

Assim no fundo mais cedo ou mais tarde eu sabia que um dia eu seria a bola da vez; eu teria um infarto do miocárdio.

Agora veja a maravilha que o Grande Arquiteto do Universo me proporcionou: a oportunidade de continuar vivo.

Aquele que me salvou da morte e ou das graves sequelas e complicações do infarto do miocárdio foi o nosso filho cardiologista e hemodinamicista Bruno Rebelo. Constatado clínica e eletrocardiograficamente de se tratava de um IAM, dentro de 1 1 hora, já na sala de hemodinâmica sob os cuidados de Bruno, ele me perguntou: “pai, passou a dor? Eu coloquei um STENT MEDICAMENTOSO em ti”. “Sim, passou; descomprimiu o peso que ardia no peito, disse-lhe”. Agora podes fechar os olhos e relaxar. Aí eu pensei: “meu Deus, me fizeste dar vida ao meu filho que agora me salva! Isso é o milagre da vida.

As lágrimas contidas pingavam discretamente ao redor dos meus olhos embaçando a minha visão, mas pareciam regar minha alma de tanto regozijo.

Ao tentar olhar para o meu filho, agora meu médico, a silhueta de sua face estava turva e cintilante como se fora o meu anjo da guarda, enviado por Deus.

Paulo Rebelo, médico escritor e poeta.

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