AMPULHETA*

AMPULHETA

Uma coisa estranha
Acontece comigo
Toda santa manhã
Pareço acordar igual
Tal qual o dia de ontem

Bocejo e espreguiço-me
Para me despertar

Mas sinto que estou
Um pouco diferente
Só não sei se para melhor
Ou para pior
Ainda é cedo para contar

Algo mudou em mim
Não na forma exatamente
E sim, no conteúdo;
Lá no meu interior
No recôndito de minha alma

É quase que imperceptível

É como o vento açoitando
As dunas da praia
Como a água da chuva
Abrindo fendas nas montanhas
A vida está mais rica
Porém escapa entre meus dedos
Estranhamente
Aos poucos se esvai

É inevitável…

Sou eu mesmo o de sempre
Mas não o de ontem

É inadiável

Nas brumas do tempo
Lentamente
Sou eu quem se desfaz…

Paulo Rebelo , médico escritor e poeta

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