TU JÁ TOMASTE O TEU LÍTIO?
🖋TU JÁ TOMASTE O TEU LÍTIO?*Por Paulo Rebelo Quando a minha mulher quer me desequilibrar emocionalmente numa discussão banal de casal entre nós, em que nitidamente ela está em desvantagem argumentativa, mas demonstrando suposto poder sobre mim, ironicamente, por mais que eu lhe implore, pura zoação ou humilhação mesmo, sádica, ela se sai com essa: “vai tomar o teu o teu lítio!” E olha, isso para não me mandar para outro lugar, cuja falta dele, segundo ela, seria a razão de minha “descompensação emocional”. Viro uma onça! Que desrespeito! Não fiz nada de errado, só falei mais alto ao discordar dela peremptoriamente, mas ela me azucrina até matar-me de cansaço. Eu tenho de calar minha boca, pois autoritária quem mandaria é ela. Basta que me eu revolte, que “ela me manda tomar o lítio”. O pior é que tomo diariamente mesmo! Aliás, em tempos de tanta guerra, prestes do mundo acabar, todo mundo deveria tomar o seu. Já tomaste alguma vez?Acontece que sou um homem essencialmente solitário, pois a medicina ocupa 90% de minha vida. A medicina escraviza e emburrece o médico, que não sabe nem falar sobre outra coisa. Eis que por isso, médicos adoecem e morrem mais cedo do que a média da população. Já viste médico velhinho da cabeça branca? Não! A maioria morre cedo como 60, 70. O casal briga e divorcia-se mais num ambiente familiar, muitas vezes, disfuncional. Até os filhos não suportando isso, rejeitam a medicina, portanto desapontando os pais médicos*.O fato é que sabedor disso, desde cedo busquei evitar as armadilhas dessa bela, mas perigosa ciência, procurei dar atenção à mulher e filhos, ainda que com naturais dificuldades, pois egresso de classe média baixa, tive que me virar nos trinta para sustentar a minha família, de cinco filhos. Veja, sem exagero algum; quando eu saia às 6:30 da manhã para trabalhar (muitas vezes, sem sequer tomar o café da manhã), os filhos ainda dormiam, e quando eu voltava para casa depois das 21 horas, eles já estavam dormindo. Às vezes, me dava um aperto no peito, pois parecia que eu os abandonara, e quando nos fim de semana eles estavam acordado “e com a corda toda”, EU estava dormindo; um desencontro total. Constrangido, digo-lhe que nunca deixei filho nenhum na escola nem almoçara com eles em casa, exceto nos fins de semana. Nunca conheci nenhum de seus professores. Com esforço, eu compensava minha ausencia semanal, sendo intenso com nos raros fins de semana com eles, indo aos interiores. Por isso, gigante, a minha esposa foi a salvadora da pátria. Já não se fazem mulheres como antigamente.Assim quando um dia disseram para a mãe que queriam ser médicos como o pai vibrei de algria (não me surpreendi); pensei: eu estava certo. Então, não errara tanto assim.O dia de hoje me trouxe belas memórias com sentimentos cruzados… Eu vinha saudosista e melancólico, lembrando de todos os filhos que já sairam de casa. Ando reflexivo. Que nem velhinhos, só nós dois sozinhos, fomos ao rio Matapí, almoçar no Restarante Flora (BOM) Coincidentemente, encontramos o belo casal amigo LYDIA E PERCY, que não nos víamos há 20 anos. Num piscar de olhos falávamos muito sobre nossas vidas. Emocionante falar da gente mesmo, quando nós nos esquecemos de si próprios. O rapport foi instantâneo.A medida que ríamos dos filhos, hoje, já adultos, eu relaxara e muito.A conversa era o litio que me faltava!P.S. O carbonato de lítio é um estabilizador de humor potente, usado para tratar transtorno bipolar (manias e depressão). Paulo Roberto Campbell Rebelo, médico, escritor e poeta.🌺🌺🌺